quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ofício de trevas - Carlos Maria de Araújo

(Geli Korzhev)

Ofício de trevas
Poema XXIV

É preciso que tragam a bandeira
É preciso que alguém vá até ao fim da noite
e desenterre a bandeira
Se já não tiver mãos
que rasgue a terra com os dentes
mas que traga a bandeira
Se já não tiver dentes
que afunde os olhos nessa terra
e lhe arranque a bandeira
que nela está sepulta
É preciso que os tambores anunciem
a chegada da bandeira
Se não houver tambores
que os mortos se alevantem
e façam rufar seus ossos
em sol altíssimo à chegada da bandeira
Iluminem Iluminem Iluminem
o caminho da bandeira
Se as nuvens de baionetas forem
trevas no caminho da bandeira
que incendeiem a noite com as pedras da rua
mas que haja luz à passagem da bandeira
para que os olhos vazados vejam a bandeira
para que as bocas rasgadas cantem a bandeira
para que os ferros caiam à passagem da bandeira

Carlos Maria de Araújo
Araújo, 1960 p.42-3

Carlos Maria de Araújo segundo Jorge de Sena
   [...]
   A sua obra muito breve é por certo das mais notáveis da poesia portuguesa que o desconhece ainda [...]; e pode considerar-se representada pelos dois livros que publicou pouco antes de morrer. Poesia extremamente despojada e densa, de uma intensa severidade formal e de vigorosa emoção contida numa expressão lapidar, é bem a de um oficiante das trevas, dessas trevas que tão terrivelmente cobrem a vida e o mundo. Nos seus ritmos curtos e sincopados, sob os quais todavia flui oculta uma simplicidade quase sentimental, esta poesia significa, como poucas das recentes, uma fulgurante definição do exílio português, no que ele tem de amargo e de frustrado, como no que, nele, resiste a tudo e mesmo ao medo que o verso tenha de sê-lo na boca do poeta, qual este disse num dos seus mais belos poemas.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

ILHA - Amílcar Cabral



ILHA

Tu vives — mãe adormecida —
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…
Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
— os sonhos dos teus filhos —
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!
Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
— terra dura —
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

domingo, 25 de setembro de 2016

GEOGRAFIA SENTIMENTAL - Albano Martins




GEOGRAFIA SENTIMENTAL

Pertenço a esta
geografia, ao lume branco
da resina, ao gume
do arado. A minha casa
é esta: um leito
de estevas e uma rosa
de caruma abrindo
no tecto do orvalho.

Albano Martins

sábado, 24 de setembro de 2016

Sobre Dores de Cabeça - ROQUE DALTON



Sobre Dores de Cabeça

É belo ser comunista,
ainda que cause muitas dores de cabeça.

E é que a dor de cabeça dos comunistas
se supõe histórica, melhor dizendo,
que não cede ante as pílulas analgésicas
senão somente quando da realização do Paraíso na terra.
Assim é a coisa.

Sob o capitalismo nos dói a cabeça
e nos arrancam a cabeça.
Na luta pela Revolução a cabeça é uma bomba de retardo.
Na construção socialista planificamos a dor de cabeça
a qual não diminui, muito pelo contrário.

O comunismo será, entre outras coisas,
uma aspirina do tamanho do sol.



Sobre Dolores de Cabeza

Es bello ser comunista,
aunque cause muchos dolores de cabeza.
Y es que el dolor de cabeza de los comunistas
se supone histórico, es decir
que no cede ante las tabletas analgésicas
sino sólo ante la realización del Paraíso en la tierra.
Así es la cosa.
Bajo el capitalismo nos duele la cabeza
y nos arrancan la cabeza.
En la lucha por la Revolución la cabeza es una
bomba de retardo.
En la construcción socialista
planificamos el dolor de cabeza
lo cual no lo hace escasear, sino todo lo contrario.
El comunismo será, entre otras cosas,
una aspirina del tamaño del sol.


ROQUE DALTON

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

OS SÁTRAPAS - PABLO NERUDA

OS SÁTRAPAS

Nixon, Frei e Pinochet até hoje
até este amargo e doloroso mês de Setembro
do desgraçado ano de 1973.
Juntamente com Bordaberry, Garrastazu e Banzer,
são hienas vorazes da nossa história, roedores
a corroerem com venenosos dentes os pendões conquistados
com tanto sangue vertido e no meio de tanto fogo,
são réus infernais,
enlameados no pantanal das riquezas mal adquiridas,
sátrapas mil vezes vendidos e vendedores
incitados pelos lobos de Nova Iorque.
São máquinas esfomeadas por dólares,
manchadas no sacrifício
dos seus povos martirizados,
mercadores prostituídos
do pão e do ar das Américas,
cloacas assassinas e mal cheirosas
chefes de rebanhos de homens
sem conhecerem outra lei senão a da tortura, da fome e do chicote
que impõem aos seus povos.


CHILE, 15 de Setembro de 1973
(O último poema de Neruda – publicado no Semanário
«A OPINIÃO» em Outubro de 1973.