segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Ó noite - Fadwa Tugan

Ó noite

Deixa que o prisioneiro termine os seus lamentos
Não creias que é o medo
Que provoca as lágrimas
Se choro é por minha pátria
E pelas crianças que deixarei em casa
Quem lhes dará pão depois de mim
Se, antes de mim, meus dois irmãos
Foram também
Enforcados...


Fadwa Tugan
(uma das mais célebres vozes da poesia palestina e árabe)

«É o momento da verdade. O meu povo está esperando ouvir a resposta do mundo. Somos o último povo a estar ocupado. Permitirá o mundo que Israel esteja acima da lei? Será isto aceitável?»




domingo, 15 de janeiro de 2017

Guia para candidatos aos infernos - Almeida Faria

Guia para candidatos aos infernos
II - Candidatos Iracundos
De nós, os iracundos, que sabe quem prospera à custa dos infernos?
Os profissionais da salvação da alma mentem a nosso respeito.
Diz-se que o Rei dos Judeus expulsou, irado, os vendilhões do templo.
Excelente exemplo! Sermos filhos da ira será defeito?
Há quem nos creia indignos de descer aos infernos.
Há quem nos considere meros proletários do berro.
É certo que os nossos guinchos são de bicho.
Guinchamos pelo prazer da pura ira.
Diante da mentira, a nossa irada ira desata a vomitar.
E podemos até desatar às dentadas de tanta ira acumulada.
Se não mordermos, espigam-nos picos na testa.
Se não mordermos, nas nossas caras abrem-se fendas.
Se não mordermos, espinhos de ferro esguicham-nos das pernas.
Os mansos detestam descobrir-se nos nossos guinchos e gritos.
Detestam ver em nós os seus dentes cerrados, os seus olhos vazios.
Detestam ver em nós o seu pescoço em parafuso, as suas mentes retorcidas.
Não é por sermos humanos que abdicamos do nosso direito ao grito.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Ser comunista, hoje - Mário Castrim




Ser comunista, hoje

Esperança:
é a maneira
como o futuro fala
ao nosso ouvido.
Depois
há que saber
organizá-la.

Então
Os comunistas entram em acção.


Mário Castrim

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

MÁRIO CASTRIM - José Vultos Sequeira




MÁRIO CASTRIM

eu era jovem

e ele      um oficiante das palavras
ensinando-me generosamente o ofício

trabalho esse     lento    lento    dádiva
paciência

anos e anos
e ele    as palavras    as palavras
os poemas    olha à tua volta
e deixa que essa verdade esse pássaro
voe em liberdade desde o mais fundo de ti

era isto ou não era bem assim
era uma atenção humana    tão humana
ao barro
ao suor do barro que eu era em construção


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Carta - Alexandre Dáskalos

Carta
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo, meu irmão
Sou fio dos pais da terra
Tenho corpo p'ra sofrer
Boca Para gritar
E comer o que comer
Os meus pés que vão
No chão
Minhas mãos são de trabalho
Em coisas que eu não sei
E não tenho nem apalpo
Trabalho que fica jeito
Para o branco me dizer
"Obra de preto sem jeito"
E minha cubata ficou
Aberta à chuva e ao vento
Vivo ali tão nu e pobre
Magrinho como o pirão
Meus fios saltam na rua
Joga o rapa sai ladrão
Preto ladrão sem imposto
Leva porrada nas mãos
Vai na rusga trabalhar
Se é da terra vai para o mar
Larga a lavra deixa os bois
Morre os bois ... e depois?
Se é caçador de palanca
Se é caçador de leão
Isso não faz mal nenhum
Lança as redes no mar
Não sai leão sai atum ...
Jesus Cristo Jesus Cristo
Jesus Cristo meu irmão
Sou fio dos pai da terra
Um pouco de coração
De coração e perdão
Jesus Cristo meu irmão.