quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

POEMA DA PERGUNTAÇÃO - Eduardo White



POEMA DA PERGUNTAÇÃO

Não somos todos, os envergonhados, os verdadeiros culpados?
Não somos nós, os indignados, os verdadeiros carrascos?
O que antes e agora julgamos, não foi apenas uma pequena evidência? O que nós prendemos não foi a mão obscura de uma consciência? E mesmo o que matamos, não foi tão-somente uma ínfima parte da verdade?
E procuramos grades? E procuramos muros altos e seguros? E procuramos homens obtusos para que os possamos vigiar? E procuramos armas para os tornarmos intransponíveis? De nada nos valerá, de nada nos adiantará. Não há ferro, nem betão, nem servilismo nenhum que nos possam salvar da luz da verdade.
Uma mentira não tem sempre sede de liberdade? Uma mentira não é a cela da verdade? E quantas vezes a pretendemos prender? E com quantas grades a desejamos ocultar? E com quantas mãos a ameaçamos estrangular?
Não vale a pena. Desistamos. Em nenhum maciço de betão podemos esconder o que a nossa consciência sabe. Em nenhuma anedota, em nenhum boato, em nenhuma suposição, em nenhuma imparcialidade e em nenhum juiz e em nenhum desmentido nos jornais e em nenhum país. Nem de nós, nem dos outros.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Começo por invocar Walt Whitman - Pablo Neruda

Começo por invocar Walt Whitman

É por acção de amor ao meu país
que te reclamo, ó necessário irmão,
velho Whitman da cinzenta mão,

para que, com teu apoio extraordinário,
verso a verso, matemos de raiz
Níxon, o presidente sanguinário.

Sobre a terra não há homem feliz,
ninguém trabalha bem no planeta
se em Washington respira o seu nariz.

Pedindo ao velho bardo que me invista,
os meus deveres assumo de poeta
armado do soneto terrorista,

porque devo ditar sem pena alguma
a sentença até agora nunca vista
de fuzilar um criminoso ingente

que apesar das suas viagens para a lua
já matou na terra tanta gente,
que até foge o papel e a pena se alevanta

ao escrever o nome do maldito,
do genocida, o da Casa Branca.




(de Incitamento ao Nixonicídio e louvor da Revolução Chilena,
tradução de Alexandre O’Neill,
Agência Portuguesa de Revistas, 1975
original: Incitación al nixonicidio y alabanza de la revolución chilena, 1973)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

OS CICLISTAS - PAPINIANO CARLOS

(9/11/1918 - 5/12/2012)
OS CICLISTAS
A Vascode Magalhães-Vilhena

Com um surdo rumor de escavadora
ressoa no subsolo a tua voz.
Muitos tapam os ouvidos delicados.
Outros escondem-se para a não ouvir.
E outros estremecem de pavor.
Mas, rápidos, os ciclistas pedalam
na bruma dos subúrbios ao teu encontro.
Rosto baixo, mãos no guiador, pés
bem firmes nos pedais, geram
o movimento, o ritmo alado
das máquinas frágeis que cavalgam
ao amanhecer. Perpassam como espectros
sob a bruma e juntam-se, confluem,
avançam como um rio poderoso
sobre a cidade adormecida.
Os ciclistas. Os que erguem os andaimes
E fazem girar os fusos dos teares.
Os que movem as gruas. Os que transportam
O dinamite nas mãos calosas.
Os que não sabem envelhecer de tédio
à mesa do café nem vivem de mercadejar
preservativos, palavras, casas pré-fabricadas.
Os que não sonham morrer em glória
como jovens deuses trespassados na batalha.
Os que não hão-de apodrecer, como muitos
de nós, roídos de lepra e desespero.
Esses merecem bem a tua voz, Orfeu.

        
 PAPINIANO CARLOS
in: “A ave sobre a cidade”, 1973

domingo, 4 de dezembro de 2016

BUSINESSMEN - Armando Silva Carvalho




BUSINESSMEN

Oh, os homens de negócios!
Em cada membro seu a águia faz o ninho.
No seu rosto as crianças descobrem-se intactas
e o coração rebenta no corpo
incendiado.
A paixão faz levantar o braço
ao que escolheu o risco,
ao que salta da boca da memória
com a força do seu peso
e faz de toda a vida a mesma casa
aberta às aves de fortuna.
Eu falo dos que lançam o olhar sobre uma coisa
como se a vissem pedir que lhe chamassem sua.
Os que transmitem à alma dos objectos
a febre dos sentidos, a gula que os desperta
com os dedos acesos e alucinados.
Atravessam o tempo, respiram a matéria,
com um simples assobio
fazem saltar no chão, amestrados,
um rebanho de escravos, medrosos
e impacientes.

Eu não pedi ao mundo a lastimosa água
que esta fila de monstros
deixa nos meus olhos.
Sorrio se os vejo empurrar
profetas ou coisas passageiras
para a mesma confusão a que chamam
história.
Que lhes doam os dentes quando as secretárias,
abrigadas no riso e nos papéis de crédito,
lhes mostram o programa do duelo diário.
Que lhes cortem o sexo depois da refeição
que arrasta atrás de si
o seu cortejo de pequenas vitórias.
Eles só prometem e trazem
o reino do triunfo.
Aos meus ouvidos chega a música voraz.
Sensíveis
às formas desiguais que se espelham nas margens
podemos respirar quando enfim adormecem
sobre os nossos corpos.
E tu – que te sentaste no canto mais espesso
Das palavras.
E tu – que te deitaste no sono
à espera que a balança do tempo
fizesse do desejo a única corrida,
colhe com eles as hastes de metal
do teu ramo suspeito
e oferece-o se puderes
à tua vida.

O QUE FOI PASSADO A LIMPO”
Obra poética
Assírio & Alvim
Pág. 266/268