quinta-feira, 26 de abril de 2018

De Coração e Raça - Sérgio Godinho


De Coração e Raça

"Sou português de coração e raça
Não há talvez maior fortuna e graça"

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

Agora vamos é ser
donos do nosso trabalhar
em vez de andar para alugar
com escritos na camisa
e o dinheiro que desliza
do salário para a despesa
compro cama vendo mesa
deito contas à pobreza

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

Agora vamos é ser
donos do nosso produzir
em vez de ter que partir
com escritos numa mala
e a idade que resvala
do nascimento para a morte
vou para o leste perco o norte
e o meu corpo é passaporte

Sou português de coração e raça
meio século comido pela traça
fechados numa caixa
e agora ou vai ou racha
e agora ou vai ou racha

Sérgio Godinho
Canções de Sérgio Godinho
Assírio e Alvim

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Rascunho de uma Epístola - Natália Correia


Rascunho de uma Epístola

Entre sobas solertes e solenes
Aqui estou de poeta e de passagem.
Das 25 pombas deste Abril
As melhores levo em versos na bagagem.

E aqui as solto transidas e alertadas
Pelo hálito do medo que já volta
E cada uma delas é uma concha
Carregando uma pérola de revolta.

Aqui eu as desprendo contra a noite
Que já da liberdade os trevos pisa
E cada uma delas é um rio
Desfiando uma prata insubmissa.

Se o país que na esperança exercitámos
For um desvão de Abril apunhalado
Onde a vida reclama a plenitude
É que o poeta é febre é raiva é dardo.

É canto arterial é um centauro
Com uma flecha de música no flanco
É toda a luz na boca e a liberdade
É o mais certeiro tiro do seu canto.

Enquanto lira for de luz cantada
O poeta sem repouso no combate,
A luta não termina quando perde
A cor nos cravos que a escuridão abate.

Natália Correia
Poema de Natália Correia (in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 75-76; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 406-407)


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Louise Michel

1830 - 1905
Professora, poetisa, escritora e combatente communard

Os cravos Vermelhos

Quando eu for para o negro cemitério,
Irmão, lança sobre a tua irmã,
como uma última esperança,
cravos vermelhos em flor.

Nos últimos dias do Império,
Quando o povo despertava,
Vermelho cravo, foi o teu sorriso
A dizer-nos que tudo renascia.

Hoje, vai florir na sombra
Das negras e escuras masmorras.
Vai florir junto do triste cativo
E fala-lhe de todo o nosso amor por ele.

Diz-lhe que já não falta muito
Para sermos donos do futuro.
Que o vencedor de fronte lívida
Mais que o vencido há-de morrer.

Professora, poetisa, escritora e combatente communard.
(declaração de amor e carta de despedda ao seu companheiro fuzilado).

Les Œillets rouges
Si j’allais au noir cimetière,
Frère, jetez sur votre soeur,
Comme une espérance dernière,
De rouges œillets tout en fleurs.

Dans les derniers temps de l’Empire,
Lorsque le peuple s’éveillait,
Rouge œillet, ce fut ton sourire
Qui nous dit que tout renaissait.

Aujourd’hui, va fleurir dans l’ombre
Des noires et tristes prisons.
Va fleurir près du captif sombre,
Et dis-lui bien que nous l’aimons.

Dis-lui que par le temps rapide
Tout appartient à l’avenir
Que le vainqueur au front livide
Plus que le vaincu peut mourir.
Louise Michel

domingo, 22 de abril de 2018

Revolução — Descobrimento - Sophia de Mello Breyner

Revolução — Descobrimento  

Revolução isto é: descobrimento
Mundo recomeçado a partir da praia pura
Como poema a partir da página em branco
— Katharsis emergir verdade exposta
Tempo terrestre a perguntar seu rosto

Sophia de Mello Breyner
in O Nome das Coisas, 1977

sábado, 21 de abril de 2018

ELOGIO DA TERCEIRA COISA de A foz em Delta - Manuel Gusmão

3
ELOGIO DA TERCEIRA COISA

Entre mim e ti há a terceira coisa
aquela que nos põe ao alcance da mão
os nomes todos das coisas e as coisas sem nome

quando a multidão sagrada dos pronomes pessoais nos
permitir dizer nós contra o tempo e o vento
Nós que aos cinco sentidos acrescentamos os outros
Nós a sensibilidade que imagina o comum

quando uma multidão deixa de ser
um rebanho de escravos para começar a ser
uma assembleia de humanos livres
de pé no chão da terra discutimos o que fazer
pelas mãos em concha bebíamos a água
onde a luz do sol cintila irisando-a
Nós que para além de ti e de mim somos

A terceira coisa : a promessa sem garantias
a invenção do incomum que partilha o comum

o comunismo que vem connosco
e para além de nós recomeça.

A foz em Delta
Três Poemas
Em Memória de
Álvaro Cunhal


A poesia pode ser uma forma de resistência
 
Pode sê-lo. Sempre, por definição, ou seja, em determinados contextos, sociais, políticos, culturais. 
 
Hoje, em algum dos lugares em que a história da modernidade de longa duração continua a vir e a inscrever-se nos tempos, alguma poesia continua a resistir. Ela resiste à quantidade de barbárie que em cada tempo insiste. Ela lê em cada tempo quais as ameaças e, consoante o seu teor, o seu perigo, por um lado e, por outro lado, o seu modo de oposição e o desejo que trabalha a sua poética, ela responderá. Ela preserva, assim, aberto ao humano, o reino da possibilidade e das transformações. 
 
Dizer que a poesia resiste é afirmar que ela é uma específica resistência à sua completa apropriação pela mente ou pelo espírito. É pensar a materialidade do seu fazer (poiesis e poiema), retirando-a do campo de acção de qualquer política do espírito.

Manuel Gusmão