sábado, 21 de outubro de 2017

Da terra - Manuel Rui

Da terra
… era a minha sementeira
se eu tivesse a mesma sina
que aproveita a goiabeira

de semente pequenina
começou por ser verdinha
mas depois se avermelhou

depois
a passarada
chilreando à liberdade descuidada
leva no bico a goiaba
que a goiabeira gerou

Manuel Rui

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Quando os meus irmãos voltarem - Aires de Almeida Santos

Quando os meus irmãos voltarem

quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos
iremos todos viver
para a estrada de catete.

havemos de construir com as nossas mãos
uma casita de adobe
bonita,
onde caberemos todos.
será vermelha,
toda coberta de capim,

vai ser fácil amassar
porque o barro já está tinto
de tanto, de tanto sangue
há tanto tempo a correr.

terá também um jardim
com rosas e buganvílias.

vai ser fácil
pois mesmo que a chuva tarde
serão regadas
com lágrimas caídas
dos olhos de todos nós.

quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos
iremos todos viver 
para a estrada de catete.

e jantaremos mufete...
e beberemos quissângua
que vos virá do bié.

e dormiremos na esteira
embalados pela brisa
que soprará no musseque.
descansaremos
do longo caminho andado:

descansaremos
p'ra mais longa caminhada...

ah! quando a minha mãe vier
e trouxer os meus irmãos
será pequena a nossa casa bonita 

(que eu tenho milhões de irmãos!)

quando a minha mãe vier
e trouxer
os meus irmãos,
iremos varrer
as cinzas dos que partiram à frente,
e cantar, 
espalhar
a nossa alegria
pelas vertentes das serras,
pelas areias das dambas,
pelos vales,
pelos montes,
pela beirinha dos rios
junto às fontes.

havemos de cantar!...

ah! quando a minha mãe vier
e trouxer os meus irmãos,
arderá uma fogueira
à beira
de cada trilho
e o brilho
de cada estrela
será maior...

mãezinha, ouve o teu filho.

não tardes, mãe,
vem depressa...



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Lampejo - Ferreira Gullar

Lampejo

O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não freqüenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Itupu
pela polícia.
Come mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
é assaltante?
é posseiro?
é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
às vezes o espancam
às vezes o matam
às vezes o resgatam
da merda
por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.
O poema se vende
se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.
O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
tisnado de sol
cavado de aflições
e no fundo do olhar, no mais fundo,
detrás de todo o amargor,
guarda um lampejo
um diamante
duro como um homem
e é isso que obriga o exército a se manter de prontidão.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

UMA CANTIGA COR-DE-TERRA - Hans Magnus Enzensberger


UMA CANTIGA COR-DE-TERRA

Outro poema sobre a morte, etc. –
certamente mas e quanto à batata?
Por razões óbvias não é mencionada
por Horácio ou Homero, a batata.
E o que dizer de Rilke e Mallarmé?
Será que não lhes disse nada, a batata?
Muito poucas palavras rimam
com ela, a batata cor-de-terra?
Não é muito preocupada com o céu.
Espera pacientemente, a batata,
até que a arrastemos para a luz
e a atiremos ao fogo. A batata
não se importa, mas será possível
que seja demasiado quente para os poetas, a batata?
Bom, vamos então esperar um pouco
até que a comamos, à batata,
e a cantemos e depois a esqueçamos novamente.

Hans Magnus Enzensberger
(Tradução de Kurt Scharf e Armindo Trevisan)