segunda-feira, 24 de abril de 2017

Com que então libertos, hein? - Jorge de Sena

Com que então libertos, hein?

Com que então libertos, hein? Falemos de política,
discutamos de política, escrevamos de política,
vivamos quotidianamente o regressar da política à posse de cada um,
essa coisa de cada um que era tratada como propriedade do paizinho.
Tenhamos sempre presente que, em política, os paizinhos
tendem sempre a durar quase cinquenta anos pelo menos.
E aprendamos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua
não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la,
mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso,
uma boa lâmpada de sala, que ilumine a todos.
Com o país dividido quase meio século entre os donos da verdade e do poder,
para um lado, os réprobos para o outro só porque não aceitavam que
não houvesse liberdade, e o povo todo no meio abandonado à sua solidão
silenciosa, sem poder falar nem poder ouvir mais que discursos de salamaleque,
há que aprender, re-aprender a falar política e a ouvir política.
Não apenas pelo prazer tão grande de poder falar livremente
e poder ouvir em liberdade o que os outros nos dizem,
mas para o trabalho mais duro e mais difícil de — parece incrível —
refazer Portugal sem que se dissipe ou se perca uma parcela só
da energia represa há tanto tempo. Porque é belo e é magnífico
o entusiasmo e é sinal esplêndido de estar viva uma nação inteira.
Mas a vida não é só correria e gritos de entusiasmo, é também
o desafio terrível do ter-se de repente nas mãos
os destinos de uma pátria e de um povo, suspensos sobre o abismo
em que se afundam os povos e as nações que deixaram fugir
a hora miraculosa que uma revolução lhes marcou. Há que caminhar
com cuidado, como quem leva ao colo uma criança:
uma pátria que renasce é como uma criança dormindo,
para quem preparamos tudo, sonhamos tudo, fazemos tudo,
até que ela possa em segurança ensaiar os primeiros passos.
De todo o coração, gritemos o nosso júbilo, aclamemos gratos
os que o fizeram possível. Mas, com toda a inteligência
que se deve exigir do amadurecimento doloroso desta liberdade
tão longamente esperada e desejada, trabalhemos cautelosamente,
politicamente, para conduzir a porto de salvamento esta pátria
por entre a floresta de armas e de interesses medonhos
que, de todos os cantos do mundo, nos espreitam e a ela.

SB, 2/5/1974

domingo, 23 de abril de 2017

Canção de Abril - Manuel Alberto Valente

Canção de Abril

nem sempre um homem resiste
aos labirintos do tempo

(morna pelugem da terra canais
de meus dedos de água
canteiros mortos da mágoa
desesperados sinais)

nem sempre um homem resiste
aos apelos da raiz
esquece um corpo  um país
nos labirintos do tempo

mas se uma vela se apaga
entre outras velas perdida
não esmorece a canção
em Abril na terra ferida

(morna pelugem da terra sinais
de um tempo futuro
meus dedos saltam o muro
onde caíram meus pais)

[Poesia Reunida - pag.21] QUETZAL


sexta-feira, 21 de abril de 2017

25 de Abril, sempre! - Jorge Castro




25 de Abril, sempre!

na leveza em que a mão se abre em cravo
no enlevo dessa luz que vem beijá-lo
nós seremos sempre Abril
tão rubro e claro
se fizermos
sempre mais
para merecê-lo

Jorge Castro

25 Abril - Vasco Costa Marques




25 Abril

A muitos bastou
a solução
barata
de ir para a repartição
de barba por fazer
e sem gravata
 
Vasco Costa Marques