segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

OS BANCOS - Armando Silva Carvalho




OS BANCOS

Era bom descolar dos bancos, erguer o olhar acima
das cantarias, deste peso rotundo,
desta massa de cifras, destes arranjos de papéis abstractos,
destes homens que sou obrigado a ler e ouvir
como tributo ao facto de estar ainda vivo.
Tudo isto e o futebol
e os seus comentadores de camisa aberta,
deprime a minha idade, mata-me
mais cedo.

Eu descubro a febre antes dela me chegar aos membros,
olho-me ao espelho e pareço um cientista ambulante
desses que ganham prémios
e só lhes falta fixamente o próximo
para alcançarem o cómodo lugar de santos laicos.
As doenças estendem-se nos mapas
as pestes são como as mariposas,
e tudo parece esvoaçar na febre programada.

Mas melhor mesmo era descolar dos bancos,
subir acima do mármore, adormecer sem idade nem estrela,
ou descer tão baixo que a água não consiga encontrar-me,
e os vermes duma beleza estranha, azul, tão movediça,
venham beijar-me os poemas, discípulos da morte.
Sim, descolar dos bancos, encher a boca de terra,
enfim, saber dormir.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

MÃOS DE PEDRA - do livro “a criança e a vida”

MÃOS DE PEDRA

Estas mãos são muito tristes.
Parecem pedras.
Tem estas cores porque estiveram muito tempo
debaixo de água.
Eram mãos de amigos que iam para longe
e os outros não queriam e choravam.
Nunca mais se encontraram.
As mãos ficaram de pedra, à espera,
à espera, à espera, à espera, muito tempo.
Dos dedos nasceram formigas e flores encarnadas.

Maria da Conceição (1966)

do livro “a criança e a vida”
coletânea de textos infantis coligidos por Maria Rosa Colaço

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Soneto para Cesário - Diniz Machado

Soneto para Cesário

Se te encontrasse, agora, na paisagem
nocturna dos fantasmas da cidade,
contava-te dos nossos pobres versos
no teu rasto de sombra e claridade

Contava-te do frio que há em medir
a distância entre as mãos e as estrelas,
com lágrimas de pedra nos sapatos
e um cansaço impossível de escondê-las

Contava-te - sei lá! - desta rotina
de embalarmos a morte nas paredes,
de tecermos o destino nas valetas

De uma história de luas e esquinas,
com retratos e flores da madrugada
a boiarem na água das sarjetas.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Canção do Tamoio - Antonio Gonçalves Dias


Canção do Tamoio

Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.
         II
Um dia vivemos!
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir;
No arco que entesa
Tem certa uma presa,
Quer seja tapuia,
Condor ou tapir.
          III
  O forte, o cobarde
  Seus feitos inveja
  De o ver na peleja
  Garboso e feroz;
  E os tímidos velhos
  Nos graves concelhos,
  Curvadas as frontes,
  Escutam-lhe a voz!
          IV
  Domina, se vive;
  Se morre, descansa
  Dos seus na lembrança,
  Na voz do porvir.
  Não cures da vida!
  Sê bravo, sê forte!
  Não fujas da morte,
  Que a morte há de vir!
         V
  E pois que és meu filho,
  Meus brios reveste;
  Tamoio nasceste,
  Valente serás.
  Sê duro guerreiro,
  Robusto, fragueiro,
  Brasão dos tamoios
  Na guerra e na paz.
         VI
  Teu grito de guerra
  Retumbe aos ouvidos
  D’imigos transidos
  Por vil comoção;
  E tremam d’ouvi-lo
  Pior que o sibilo
  Das setas ligeiras,
  Pior que o trovão.
          VII
  E a mão nessas tabas,
  Querendo calados
  Os filhos criados
  Na lei do terror;
  Teu nome lhes diga,
  Que a gente inimiga
  Talvez não escute
  Sem pranto, sem dor!
          VIII
  Porém se a fortuna,
  Traindo teus passos,
  Te arroja nos laços
  Do inimigo falaz!
  Na última hora
  Teus feitos memora,
  Tranqüilo nos gestos,
  Impávido, audaz.
         IX
  E cai como o tronco
  Do raio tocado,
  Partido, rojado
  Por larga extensão;
  Assim morre o forte!
  No passo da morte
  Triunfa, conquista
  Mais alto brasão.
          X
  As armas ensaia,
  Penetra na vida:
  Pesada ou querida,
  Viver é lutar.
  Se o duro combate
  Os fracos abate,
  Aos fortes, aos bravos,
  Só pode exaltar.

Antonio Gonçalves Dias