domingo, 26 de março de 2017

A INDESEJADA - Darcy Ribeiro

A INDESEJADA

Aí estão eles, os da terceira idade.
Gregários, vivem aos bandos.
Sentados, jogando cartas, andando devagar.
Conversando pretéritos assuntos.
Olhando tristes os outros viverem.

Antigamente, todos seriam avós, vovozinhos.
Hoje, são sogros, os chatos dos sogros.
Uns são viúvos, outros largados, poucos.
Muitos deles, os mais, ainda casados.
As mulheres duram demais.

Órfãos de seus filhos, ocupadíssimos.
Não reclamam, resmungam disfarçados.
Estão todos aflitos, na espera
Da indesejada, que tarda.
Tarda, é certo, mas virá. Inexorável.



sábado, 25 de março de 2017

Candidatos Hereges - Almeida Faria

Santana Lopes, Bosco Amaral, Dias Loureiro, Miguel Relvas, Luís Arnaut e Jorge Moreira da Silva
Guia para candidatos aos inferno
XII - Candidatos Hereges
Ser herege é ter de escolher, custe o que custar.
Não pensamos o que querem obrigar-nos a pensar,
Não fazemos o que esperam obrigar-nos a fazer.
Mas quem escreveria hoje Os Heróicos Furores?
Quem enfrentaria a fogueira do Campo dei Fiori
Como o homem de Nola? Quem estaria disposto
A ser representado de olhos esbugalhados, cara
De pernas para o ar e orelhas no pescoço monstruoso?
Quem estaria pronto a morrer como Julião ainda jovem?
Quem correria hoje o risco de ser morto como um cão,
Na prisão, num descampado, numa esquina anónima?
Sabemos que a mesa mais venenosa é a Mesa Censória,
Aquela que usa o seu poder para definir o que é háiresis,
Tentação diabólica, coisa de orgulhosos e heterodoxos.
A fossa do sexto círculo é melhor e mais espaçosa
Que a estreiteza dos Bempenteadinhos que decidem
Quem é herético ou herética: os que ardem depressa.

Nota: a imagem foi por mim escolhida.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Canção da esperança - Arquimedes da Silva Santos


Canção da esperança

Corações nossos faróis
Na noite desta batalha
Num refulgir de navalha
 Rasgai o véu aos heróis.   

As nuvens hão-de passar!
Penetra-as o sol da alma
Para além do próprio olhar.
E os medos de arrefecer
Espanta-os um peito calmo
À firmeza de vencer.

Os golpes de viva dor
Temperam a fé futura
Constante forjam o amor.
E as quedas não são fatais
Se a chama desta aventura
Em nós cresce ainda mais.

A luta nunca foi vã!
Os braços em liberdade
Levantam outro amanhã.
E os lábios dão a florir
Os hinos desta verdade:
É de acção nosso porvir.


quinta-feira, 23 de março de 2017

Na Rua António Maria - José Afonso



Na Rua António Maria

Na Rua António Maria
da primaz instituição
vive a maior confraria
desta válida nação

E muita matula brava
ainda teimava
que havia de vir
um dia assim de repente
para toda a gente
voltar a sorrir

Mas eles Conceição vão
lamber as botas
comer à mão
dum novo Pina Manique
com outra lábia
com outro tique

Tem quatro letras pequenas
Mas outro nome não dão
Nesta fortaleza antiga
Só não muda a guarniç:ão

E muita matula ufana
cuidando que a mana
morrera de vez
deu graças
à D. Urraca
ao som da ressaca
que o pagode fez

Mas eles Conceição vão
lamber as botas
comer à mão
dum novo Pina Manique
com outra lábia
com outro tique
 
Na Rua António Maria
convenha a todos saber
a patriótica espia
sabe bem onde morder
vela p´la nossa morada
no vão de uma escada

Sem se anunciar
e oferece a quem bem destina
um quarto de esquina
com vistas pró mar

Mas eles Conceição vão
lamber as botas
comer à mão
dum novo Pina Manique
com outra lábia
com outro tique

Aldeia da roupa branca
suja de já não corar
O Zé Povo foi pra França
não se cansa de esperar
O capataz da fazenda
pôs a quinta à venda
para quem mais der
e os donos marcaram tentos
com novos intentos
doa a quem doer

Mas eles Conceição vão
lamber as botas
comer à mão
dum novo Pina Manique
com outra lábia
com outro tique
José Afonso


 

quarta-feira, 22 de março de 2017

Falo do que é físico - ANA HATHERLY



Falo do que é físico

Falo do que é físico porque não tenho outra realidade.
Falo do corpo
do mundo
do que ainda não sabemos e chamamos divino.

Falo do que é físico
porque tudo o que é real tem corpo e ocupa espaço.

Falo disso.
Falo do que existe
e tudo é tanto que nunca chega o tempo
nunca chega o fôlego.

Vejo até à asfixia
gente, coisas, o invisível.

Tudo me faz estar em permanente frêmito
sair para a rua de noite
e andar até cair de cansaço.
Pensando em tudo isso
extremamente sobreposto
como se uma grande dor não anulasse outra
como se fosse possível
pensar em mais de uma coisa de uma só vez
sentindo o simultâneo impossível
querendo abranger
a incontrolável voracidade dentro de tudo.

Corro por mim fora
como um grande atleta
campeão de barreiras e distâncias invencíveis
tentando vencer
mas tudo é enorme e intrincado
tudo em mim são olhos vigilantes
sem jamais pálpebra.

Mas tudo isso não chega.
Tudo é enorme
e morro tão depressa.