domingo, 20 de agosto de 2017

NO REINO DO PACHECO - Alexandre O’Neill


NO REINO DO PACHECO



Às duas por três nascemos,
às duas por três morremos.
E a vida? Não a vivemos.

Querer viver (deixai-nos rir!)
seria muito exigir…
Vida mental? Com certeza!
Vida por detrás da testa
será tudo o que nos resta?
Uma ideia é uma ideia
- e até parece nossa! –
mas quem viu uma andorinha
a puxar uma carroça?

Se à ideia não se der
o braço que ela pedir,
a ideia, por melhor
que ela seja ou queira ser,
não será mais que bolor,
pão abstracto ou mulher
sem amor!

Às duas por três nascemos,
às duas por três morremos.
E a vida? Não a vivemos.

Neste Reino de Pacheco
- do que era todo testa,
do que já nada dizia,
e só sorria, sorria,
do que nunca disse nada
a não ser prá galeria,
que também não o ouvia,
do que, por detrás da testa,
tinha a testa luzidia,
neste Reino de Pacheco,
ó meus senhores que nos resta
senão ir aos maus costumes,
às redundâncias, bem-pensâncias,
com alfinetes e lumes,
fazer rebentar a besta,
pô-la de pernas pró ar?

Por isso, aqui, acolá
tudo pode acontecer,
que as ideias saem fora
da testa de cada qual
para que a vida não seja
só mentira, só mental…

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Chão Nosso - Francisco Viana (música Os Trovante)


(Trovante)

Chão Nosso

Chão nosso,
Labutado,
Pão-a-pão,
No teu ventre semeado.

Dia-em-dia
Te daremos
A vontade
Do nosso corpo ainda acorrentado.

Contigo
Nos libertaremos
Das ofensas que não perdoamos.

Chão nosso,
Desvendado,
Sol-a-sol
Pelo fogo do arado.

Pela mão
Oprimida
Da razão
Luta de morte e de vida.

Chão nosso
Da nossa batalha.
Glória, glória
A quem o trabalha.

Chão nosso
Da nossa batalha.
Glória, glória
A quem o trabalha.

Chão nosso fecundado
De amor e suor,
A manhã sem perigo,
Clamor dos servos cravos,
Camponeses sem terra.
E de ti chão nosso
Se levantará liberto
Nas mãos obreiras
Nosso pão de cada dia. (x2)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

CANTAR - Gastão Cruz

CANTAR

Este cantar dos anos de pobreza
diferente da vida e tão diverso
do poderoso som da esperança

por entre os dentes vis de que se nutre
a sua boca
sopra da aflição a turva música

Este cantar dos anos que a mudança
do canto fez diverso da esperança
é um canto de esperança enquanto canta

Gastão Cruz

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

CRISE Poema de Antonio Miranda


CRISE
Poema de António Miranda

Tem um anti-herói - Macunaíma - levitando no Congresso.

Os intelectuais estão mudos, perplexos
monologando sobre a utopia corrompida
relendo manifestos. Paquidermes ressentidos.

Os políticos sangram, desencantam
(quem foi estilingue virou vidraça)
sugam as entranhas do poder
num inferno a céu aberto.
Em posições trocadas, os canalhas
em espelhismos e disfarces sutis
exorcizam fantasmas redivivos
- ou seriam mortos-vivos
canibalizados.

Um batráquio atônito discursa
para as colunas surdas
para ouvir o próprio eco.

Não, não e não!!! é o bordão
dos acusados. Ato falho, coerção
enquanto os jornalistas sádicos
regozijam, triunfantes
sobre os escombros.

Os urubus planam ávidos
sobre a esplanada desconcertante
e os ratos roem os alicerces
precários.

Os banqueiros estão blindados
mas assustados.
Os militares cegos, os religiosos surdos
e os juízes calados.

A população aturdida
- enquanto a lama medra -
não entende mas pressente
a véspera do nada.

Antonio Miranda

Brasília, 3 de setembro de 2005
*"Estrutura" Bandeira do Brasil, trabalho em cimento armado colorido, de autoria de Antonio Miranda, construido na Chácara Irecê, no município de Cocalzinho, Goiás.